Introdução

…Porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões… Mas queimam, queimam, queimam, como fogos de artifício pela noite.

A primeira vez que li “On The Road”, era uma edição tosca com uma tradução mais tosca ainda: “Pé na Estrada”. Eu tinha uns 14 anos e me sentia efervescendo por dentro. Acho que, na verdade, com essa idade todo mundo se sente assim: em efervescência. O mundo é novo, a estrada é longa e somos invencíveis. E esse é só o começo de uma jornada infinita.

Dez anos depois, me apaixonei, saí de um emprego relativamente estável e fui fazer meu primeiro e mais marcante mochilão. Destino escolhido: Bolívia. E lá, peguei a estrada mais cheia de poeira que já vi na vida. Ou melhor, a estrada me pegou. E uma vez que a estrada te pega, meu chapa, tu tá ferrado.

Bolívia---Sta-Cruz-04
Busão partindo para Sucre, saindo de Santa Cruz de la Sierra

Ferrado porque não voltamos mais a ser o que éramos antes – você dorme ao relento, fica sem tomar banho, acorda de ressaca, usa roupas sujas. Anda na poeira. Come sentado no chão. Não se importa em lavar o cabelo. Não se importa mais com quase nada – nem com roupas, com calçados, com estrutura, com limpeza, com tecnologia… ­Só te importa a estrada, a jornada, o caminho. Você vai se tornando chão, terra, poeira, grão infinito de um contexto maravilhoso chamado mundo. E quanto mais pra longe vamos, mais percebemos quanto pequenos somos e quanto o mundo tá cagando pra nossa existência; somos meros observadores do universo, contemplando estrelas distantes no céu, luas enormes nos desertos, salares gigantes, um sol pintado de vermelho, vivo como nos sentimos por dentro. A gente observa a beleza. A gente chega perto de Deus.

Nos tornamos poeira de verdade. E tudo isso pra tentar explicar de forma mínima o que a estrada representa e como expandir seus horizontes no mundo te leva em uma transformação tão íntima e individual que não tem volta. Não existe retorno – quem pega a estrada não volta mais dela; deve ter algum tipo de bicho, de doença, de condição que te impede de voltar. Você retorna pra casa, pro emprego, pra família, pros amigos, mas o coração tá ali pulsando, vibrando, pensando no próximo destino. A estrada é dos loucos – daqueles que queimam, queimam e queimam, como disse Kerouac.

Este é o post inicial de nossa jornada Bolívia – Peru que começou aqui em Santa Cruz de la Sierra.

Uma consideração sobre “Introdução”

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