A estrada da morte

Até agora eu penso que a coisa mais radical que eu já fiz na vida foi essa viagem de ônibus. E olha que eu já voei de ultra-­leve, fiz rapel, treinamento de selva com jiboias gigantes, dormi ao relento, e acampei na praia.

Esse é o post 2 de nossa jornada Bolívia – Peru. Se quiser ler desde o começo, é só clicar aqui e partir de Santa Cruz de la Sierra.

O cenário era: um ônibus cheio de cholas com crianças, galinha, comida, bolivianos em geral e muita coisa para se carregar. De turistas apenas nós. Nos bilhetes escrito: partida 15:12hs. Horário estranho para nós brasileiros, mas chegamos com antecedência, escolhemos os primeiros assentos, organizamos as malas em nossos pés e ficamos lá sentados. Estava muito quente, então eu vestia uma legging e uma camiseta regata – gente sou de Belém, aqui a gente sua, fica oleosa e eu já tô acostumada com calor. Não me incomodei e escolhi o assento da janela, queria olhar a paisagem, que coisa linda as cordilheiras vou curtir demais essa trip que emoção uhuul!, pensei animada. Minha janela estava aberta, podia escutar as vozes do lado de fora, aquele idioma lindo, aquelas pessoas coloridas, nossa, que pulsante, que lindo, que tudo, estou conquistando o mundo. 15:12h o ônibus saiu. Na Bolívia as pessoas são pontuais, nossa muita civilização que máximo, então cheguem no horário. De repente uma mulher começa gritar desesperada em pé no ônibus que o marido dela tava no banheiro e era pro ônibus esperar. Começou então um bate boca entre o motorista do ônibus e a senhora por uns três minutos, ela dizendo algo como “moço espera que eu vou chamar ele” e o motora indignado “se você descer do ônibus, vai ficar!”. A senhora desceu e o ônibus foi embora!

Bolívia---Estrada-da-morte-04

Simples assim. Não chegou no horário tchau, beijo, Deus te abençoe, você fica. Já fiquei meio chocada porque, né? Sou brasileira e a gente sempre acha que dá tempo, mas enfim, seguimos. Eu apaixonada achando meu namorado lindo (era o primeiro ano de namoro!), olhando aquela paisagem andina maravilhosa, respirando profundamente e pensando na vida. Uns trinta minutos de viagem, de repente vejo uma placa escrito:

SUCRE – 450 KM.

Oi? Como é isso? Tinha alguma coisa errada, eram mais de 15 horas de viagem previstas pra fazer 450 km? Olhei pro Daniel (que nessa hora já não achava mais tão lindo e já não estava mais tão apaixonada) e perguntei: “Daniel, você sabia que eram 450 km de distância?” Ele, incrédulo, me olhou e disse: “Amor, acho que você viu errado.”

A vida seguiu, a estrada continuou por mais algumas horas, passamos em uns dois vilarejos que não me lembro o nome e, já à noite, o motorista fez uma parada para jantarmos alguma coisa e irmos ao banheiro. Já começava esfriar, então vesti uma blusa de manga e uma lã, calcei meu tênis e desci. Choque: tinha uma rede pendurada dentro do bagageiro do ônibus com um homem dormindo lá. Descobri que era o outro motora porque como a viagem é longa, eles revezam. Me senti segura e achei os bolivianos responsáveis. Jantamos uma sopa de pollo com macarrão, usamos o banheiro, entrei no ônibus e lá fomos nós – minha intenção era dormir para chegar em Sucre descansada.

Como tinha esfriado consideravelmente e eu estava de legging com uma parte da perna de fora (fiz a viagem toda com as pernas pra cima por causa da bagagem), o vento que entrava pela janela me incomodou. Fui tentar fechar, surpresa. Minha janela tava quebrada. Tudo bem, férias, viagem, mochilão, espírito dos andes, segue a vida, vamos ser feliz. Tentei desconsiderar e me encostei no Daniel pra dormir.

Sei lá por quantas horas mais viajamos comigo dormindo. Sei que de repente acordei com uma pancada da minha cabeça batendo no vidro do ônibus, uma cúmbia alta tocando no som, as luzes apagadas e um vento CONGELANTE entrando pela janelinha que não fechava. Não entendi nada, olhei pra fora uma escuridão total, só via as estrelas e tive a impressão de que o ônibus tava parado. Quando entendi o que estava acontecendo me deu um desespero e finalmente entendi o motivo de 450 km serem feitos em mais de 15h. Não existe estrada. É uma subida de montanha na beira do precipício no meio de um lamaçal com pedregulhos onde passa apenas um veículo. Da minha janela não via estrada, rua, rota, nada – só precipício. E pensei que se acontecesse alguma coisa ali a gente tava lascado até onde não tivesse como lascar.

Olhei pro Daniel e percebi que os olhos dele estavam arregalados – não sei se pela estrada ou pelo motorista número dois que tinha assumido a direção, mascando folhas de coca sem parar, tomando mate e escutando uma cúmbia muito alta: “CO-­RA-­LÍÍÍÍ!!!!”, gritava o som.

Desisti de dormir, de pensar, de orar e fiquei apenas olhando o céu, que estava lindo. Aos poucos o dia foi amanhecendo e percebemos que o perigo da estrada tinha passado. Começamos ver os contornos da paisagem à nossa volta: um céu em tons de vermelho, meio dia que quer nascer com a noite que se despede e elas – as montanhas. Muito lindo, um nascer do sol que pagou todo o perrengue.

Ainda tivemos algumas desventuras até chegar em Sucre – começou uma fumaceira danada no ônibus, o motora perguntou quem tinha água pra apagar o radiador que tava queimando, uma chola se assustou e começou gritar, enfim…

À essa altura a estrada já tinha me pego e não havia mais volta. Assim como a Bolívia. Então finalmente chegamos em Sucre.

6 comentários em “A estrada da morte”

  1. Pingback: Sucre | Mundano
  2. Na Bolívia aprendi que 3 horas podem ser 6 e que 8 podem ser 12, sempre que eu me dirigia a um box de rodoviária pra perguntar se demoraria a viagem. As estradas, ônibus, paradas (com pollos) são parte indissociável de uma boa viagem a Bolivia, eu acho.

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