Potosí: minas, altitude e frio

Lembra que eu disse que na Bolívia as pessoas são pontuais? Pois é, na estrada para Potosí comprovamos isso. Paramos para fazer um pit stop (xixi e lanches) e o motora falou que tínhamos 20 minutos. Como já havíamos presenciado aquela situação em Santa Cruz, usamos o banheiro (Daniel fez xixi ao ar livre, que feio), compramos nossos lanches, água e voltamos logo para o ônibus. Deus me livre de ser deixada por alí. Aguardamos mais um pouco e o ônibus partiu. Eis que uns 10 minutos depois alguém grita: o casal de franceses ficou! 

Este é o post 4 de nossa jornada Bolívia-Peru. Você pode ler do início em Santa Cruz de la Sierra, ou o post anterior vindo de Sucre  para  Potosí.

Continuamos a viagem e eu comendo rocklets que é tipo um M&M e na Bolívia era muito barato, me entupi desse negócio. Só que isso dá muita sede, imagina na altidude e no clima seco, então lá fui eu abraçada com um litrão de água a viagem toda. Comia rocklets e tomava água. Quando vi, tava louca pra ir fazer xixi e só via montanhas e estrada na minha frente. Me arrependi de ter tomado toda aquela água e segui a viagem tentando pensar em algo que não fosse chuva e cachoeira.

A vontade crescia e nos aproximávamos de Potosí. Fui ficando mais tranquila mesmo com muita vontade de usar o banheiro. Chegamos, o ônibus nos deixou em um posto de gasolina, onde não me deixaram usar o banheiro. Anoitecia, olhei em volta e tive a certeza que cheguei no velho oeste americano: poeira, vento, pouca gente na rua. Do outro lado do posto de gasolina um mercadinho que parecia aqueles saloons – só faltou a bola de feno rolando com a força do vento. Corri pro mercadinho e IMPLOREI pra usar o banheiro. Não deixaram. Desesperada convenci o Daniel a pegar uma condução até a praça de armas para buscarmos nosso albergue, já que não fizemos reserva. Entramos no albergue e já perguntei onde era el baño, sem nem saber se ficaríamos ali.

Dani e Rafa negociavam, queriam um preço melhor. O albergue era jeitoso, quarto triplo, banheiro coletivo, calefação, WiFi. Acharam meio caro, atravessamos a rua e tinha um tão bom quanto – com café da manhã e banheiro privado, olha só que maravilha! E era mais barato! Tiramos a sorte grande e optamos pelo segundo, ficamos no Hostal Compañía de Jesús por B$ 50/pessoa. Só tinha um porém – não tinha calefação. AVISO: na Bolívia, no inverno, opte sempre pela calefação. Faz um frio louco de noite, não tem cobertor nem calor humano que dê jeito. Então nossa felicidade durou pouco e passamos a noite empacotados embaixo das cobertas.

A cidade de Potosí fica situada a mais de 4.000m acima do nível do mar, e a paisagem que vislumbramos do centro da cidade mais alta do mundo é como se fosse um vale entre as montanhas – sendo o Cerro Rico a mais famosa. A população em sua maioria é de baixa renda e durante muito tempo a principal atividade econômica dali era a extração de prata das minas que cercam a cidade. Com o passar dos anos, a extração do estanho também se tornou uma prática comum e rentável, então praticamente a maior parte da população com força de trabalho estava nas minas. Essa exploração desordenada acabou resultando na morte de muitos índios que trabalhavam a serviço dos espanhóis e originou a famosa frase de Frei Domingo de Santo Tomas, que vivia por lá: “Não é a prata que se envia a Espanha; é o sangue e suor dos índios”. Essa exploração da mina acontece até hoje, sob o efeito das folhas de coca e do álcool 96%, que amenizam os efeitos da altitude e os incômodos provocados naquele ambiente hostil.

No albergue em que ficamos, o proprietário e sua filha fazem visitas guiadas para uma dessas minas, que agora também são um ponto turístico. Saímos de manhã e fomos, lembro que o passeio custou em torno de 70 bols. Primeiro passamos em um mercado de mineiros, onde compramos folhas de coca, água e lanches. Depois a kombi nos deixou na base do Cerro Rico, e pudemos admirar a linda paisagem. Fizemos fotos, nosso guia nos ensinou a “pichar” a folha de coca, como dizem por lá. Vi um menino e sua mãe trabalhando, aquela cena me comoveu, fiz fotos deles. Uma criança com olhar adulto, triste, combalido. Viajar realmente é perceber e contemplar pois muitas vezes somos impactados pelo que vemos – mas pouco podemos fazer para mudar aquilo.

Então, após as fotos, dei algum dinheiro a eles, mesmo sabendo que essa atitude não significa e não muda nada por alí. Seguimos em frente e chegou o momento de entrar na mina. Não é um passeio turístico, nem seguro. Temos que assinar um termo de isenção que basicamente isenta o guia de qualquer tragédia que possa acontecer com você alí – você é o único responsável. Entramos e o clima se tornou frio e úmido, com água e lama nos nossos pés. Comecei me sentir mal, com falta de ar e dor de cabeça. Não fui muitos metros adentro e retornei, junto com uma alemã. Sentamos na montanha e ficamos aguardando o tour terminar, contemplando o céu, a paisagem, os andes, e pensando como alguém pode trabalhar às vezes por até 36 horas em um ambiente como aquele.

Lembrei do ditado “a necessidade é a mãe do progresso”, e pensei que deveria ser “a necessidade é a mãe do trabalho”. No fim topamos o que é preciso para seguirmos vivos – mesmo que isso represente arriscar a própria vida todos os dias.

Os meninos adentraram na mina num passeio bem difícil. Em alguns pontos a lama chega a altura dos joelhos, em outros tem que se espremer todo pra subir e descer as paredes de pedras. As minas ainda estão ativas mas já não possuem tantos minérios. Dentro o ar é muito rarefeito, a pressão é bem maior e as folhas de coca são mais que necessárias. Dentro das montanhas de minério os bolivianos criaram alguns altares para venerar El Tio – O Tio, que na verdade é nada mais, nada menos, que o capeta. Pra cultura inca da região, os minérios nascem na natureza como fruto do cruzamento de El Tio com a Pacha Mama (a Mãe Terra, em quechua). Nestes altares, você deixa coca, álcool e queima cigarros na boca do cramulhão em agradecimento às benesses dadas pela terra, que servem de um alento natural e divino, sem ironia, àquele povo tão pobre e necessitado, que dali pode extrair um pouquinho para seu sustento diário, em troca de muito esforço.

Após este verdadeiro choque cultural, saímos na noite seguinte para conhecer o maior deserto de sal do mundo – o Salar de Uyuni.

5 comentários em “Potosí: minas, altitude e frio”

  1. Olá Heloísa!!

    Primeiramente parabéns pelo relato, já muito me ajudou!

    Dentro de alguns dias irei a Potosí, você pode me passar o nome do albergue em que vocês ficaram e o gasto diário entre alimentação/tour/táxi/estadia na cidade?

    Você tem alguma planilha com gastos ou o roteiro de sua viagem? Depois de Potosí vou ao Salar e gostaria de saber como estão os preços por lá.

    Qualquer informação é de grande valia.

    Desde já muito obrigado.

    Thiago.

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    1. Oi, Thiago!! Tudo bem?
      Primeiramente, ficamos muito felizes em receber o seu comentário! O Mundano foi feito exatamente pra isso: postar informações que possam ser úteis para outras pessoas que estejam pensando em viajar ou se planejando ou sonhando em conhecer alguns lugares deste maravilhoso mundo em que vivemos.
      Em segundo lugar, pedimos desculpas pela demora em responder. Porque quando recebemos seu comentário, corremos pra editar as fotos e criar um texto sobre Uyuni justamente para poder já lhe indicar nosso relato e tentar lhe ajudar de alguma forma. Segue aqui o link do post: https://mundano.com.br/2015/09/02/uyuni-o-salar-e-o-cemiterio-de-trens/
      Agora vamos às respostas das suas perguntas:
      Estadia > Thiago, a melhor sugestão que posso lhe dar é que você sempre procure se hospedar nas proximidades da Plaza de Armas, que acho que tem em todos os interiores da Bolívia e são sempre o centro das cidades. No entorno da plaza, você vai encontrar diversas opções, talvez até bem melhores do que a nossa. Ficamos no Hostal Compañía de Jesús pagando 50 bols/pessoa e contratamos o tour com o proprietário da hospedagem, que também foi o nosso guia.
      Gastos > Fomos em agosto de 2011, na época conseguimos cambiar o dólar por R$ 1,78, então já nos ajudou bastante porque é nem 1/3 da cotação atual. Não chegamos a montar uma planilha mas anotamos alguns gastos que inserimos nas postagens. Nossa viagem durou 11 dias dentro da Bolívia, sempre nos hospedamos em hostels, fizemos todas as viagens de ônibus e fizemos todos os passeios possíveis (exceto Tiahuanaco em La Paz, que me arrependo muito), e durante estes 11 dias gastamos cada um US$ 300. Realmente muito barato!! Mas reitero que isso foi em 2011, não sei se os preços se mantiveram os mesmos.
      Roteiro > Saímos de Belém para Santa Cruz de la Sierra num voo da Gol que nos custou um pouco menos de R$ 800 (ida e volta). De lá, nossa rota foi Sucre – Potosí – Uyuni – La Paz – Copacabana (Isla del Sol) – Cusco. E de Cusco fizemos os tours pelo Vale Sagrado nas proximidades e Machu Picchu. Se você quiser acompanhar a nossa rota desde o início, você pode ler nossos posts a partir daqui https://mundano.com.br/2015/08/10/introducao/#more-26
      Aos poucos estamos inserindo os posts dessa viagem de maneira cronológica. Então logo logo vão aparecer as outras cidades e passeios que fizemos. Ah! Se você for em La Paz, não deixe de fazer o tour do Chacaltaya!!!!!!!

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  2. Pingback: Sucre | Mundano

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