Varanasi: O Coração da Índia

Varanasi é considerado o lugar mais importante da cultura hindu por conta das centenas de templos existentes na cidade, além de ser banhada pelo Rio Ganges, que é venerado diariamente por conta de sua importância religiosa à cultura indiana.

Quando planejamos a viagem eu sabia que encontraria graves problemas de saneamento na cidade, só não imaginei que seriam assim tão chocantes. Antes de chegarmos ao aeroporto, havíamos combinado com o responsável do hotel que enviasse um táxi para nos buscar, assim o condutor já saberia exatamente onde nos deixar, o que é uma grande vantagem na Índia por conta de as cidades serem um grande tumulto o tempo todo. O motorista saiu em alta velocidade jogando luz alta e ultrapassando tudo o que aparecia no meio da estrada, e foi tudo mesmo: carros, caminhões, caçambas, vacas, cachorros, pessoas, cortejo de casamento, tuktuk, rickshaw, bicicletas, toras de madeira, manequim de loja e outras coisas mais. O trânsito é uma loucura total, com certeza você nunca viu nada parecido na vida. E fica tudo assim pela estrada principal, tudo pertinho porque não tem calçada, então anda tudo misturado. O povo não para de buzinar, e você olha pra eles dirigindo, estão todos calmos, não se irritam, super tranquilos. Com o tempo a gente entende que eles estão pedindo passagem e ao mesmo tempo querendo avisar a quem estiver na frente que eles estão passando, porque ninguém usa o retrovisor – eles o recolhem pra não bater e quebrar. O mais interessante é que no meio dessa confusão toda, eles não ficam nada aborrecidos. Acho que as incessantes buzinas devem fazer parte da prova de trânsito.

No meio desse tumulto o taxista parou, bem no meio da rua, e disse que havíamos chegado. Era por volta de 8 da noite. Na porta de uma loja havia um rapaz nos esperando, aí ele catou uma bagagem e fomos seguindo-o até o hotel. E aí sim começa de verdade a saga pelas ruas de Varanasi. Com o passar dos dias, percebi que não era tão longe da estrada principal mas o choque foi imenso caminhando por aquele lugar até chegarmos em nossa hospedagem. As ruas têm no máximo dois passos de largura, ou seja, mais ou menos dois metros, então é claro que não tem como entrar carro por ali, mas isso é apenas uma pequena observação. Pelas ruazinhas da cidade, nesse estreitíssimo espaço que você tem para se locomover, aparece de tudo: moto, vaca, cabrito, cachorro, milhares de pessoas, lojinhas de tecidos, artigos de decoração, coisas para presentes, lixo, muito lixo, bugigangas indianas, vendinhas de comidas típicas com macaco andando em cima, catitas dentro do expositor de alimentos, e você ainda tem que caminhar olhando pra baixo pra não pisar num cocô de vaca, de bode ou de qualquer outro bicho que ande livre pelas ruas. Tudo isso ao mesmo tempo disputando o apertado espaço das pequenas vias da Velha Varanasi. Digo com toda a convicção que mesmo que você leia todas as matérias sobre a cidade, vai por mim: você nunca estará preparado como pensa. Então, após uma infindável caminhada (depois vi que era pertinho, o choque é que tinha sido grande), chegamos até o hotel. Eu mal havia entrado e só conseguia pensar numa coisa: “Quando é que eu vou embora daqui?”. Estava realmente desesperado!

Agora esqueça tudo o que você leu acima. Os dias seguintes foram absolutamente formidáveis! Tivemos a sorte de sermos recebidos por um cara muito simpático chamado Shambhu, responsável pelo hotel, que nos explicou sobre a cidade, sugeriu algumas programações e no dia seguinte já havia acertado o que era preciso para que pudéssemos conhecer alguns dos principais pontos da cidade. Varanasi é repleta de espiritualidade, pulsante, considerada a principal cidade do hinduísmo na Índia, e com centenas de templos espalhados em meio as confusas ruazinhas que a formam.

Pra diminuir meu impacto inicial, escolhemos começar nossa jornada pelo principal templo da cidade, o Kashi Vishwanath Temple ou  Golden Temple, onde passam milhares de pessoas todos os dias. Shambhu nos explicou que turistas só podem adentrar acompanhados por um Brahmin (explico mais a frente) que nos guiou pela inspeção policial, onde eles anotam nosso passaporte, local de estadia, fazem uma revista e depois autorizam a entrada assim que respondemos “Sim!” quando perguntam se você acredita da força de Shiva. A fila é enorme! Todo mundo quer visitar o templo, fazer oferendas e receber as bênçãos dos deuses. Pra quem é de fora, o Brahmin tem livre acesso, então a gente não enfrenta filas e visita o local de forma menos demorada. O Golden Temple é formado por diversos templos menores no seu interior, e a primeira e principal fila é para visitar o templo de Shiva. Lá a gente despeja leite e flores no Linga de Shiva, e recebe a primeira benção. É o templo mais concorrido, as pessoas ficam muito emocionadas, inclusive nós choramos muito, e algumas demoram muito tempo fazendo preces àquele deus, e por conta disso é que fila demora a andar. Da segunda parada em diante, é mais tranquilo e sem filas, é no templo de Durga e Ganesha (mãe e filho) onde fomos recebidos por outro Brahmin que fez orações, nos deu bênçãos em nome dos dois deuses, recitamos alguns mantras com a ajuda dele, recebemos uma pulseira vermelha e amarela em referência às deidades, nos ajoelhamos e seguimos para o terceiro templo. Neste recebemos outra bênção e um punhado de arroz, símbolo de prosperidade. Dali nosso Brahmin-guia nos conduziu para a saída. Infelizmente não tenho como explicar o que eu senti porque isso levaria muito tempo e não tenho certeza se conseguiria fazê-lo com tanta precisão, mas o estado era de serenidade e de uma profunda paz e tranquilidade. Quando a visita terminou, retornamos à loja onde havíamos conhecido o nosso guia. Sentei e fiquei alguns minutos parado, calado, chorando e bastante emocionado, tentando entender apenas um pouco daquela experiência que havíamos vivido. E depois de um tempo refletindo percebi que jamais conseguiria compreender tudo, e que o importante realmente era sentir o que aquela experiência tinha me trazido. Muito diferente de tudo o que eu já havia vivido.

A cultura hindu é muito diversa. Então farei aqui uma pequena pausa nos relatos para explicar um pouco do que aprendemos durante esta viagem:

Os Brahmin são os homens sagrados que vivem dedicados a cuidar dos templos. Passam o dia em seu interior, higienizando e organizando, alimentam-se no restaurante local que fornece comida de graça com a partir das doações feitas aos templos. Ao lado das imagens dos deuses no interior dos templos, ficam também alguns Brahmin que abençoam os visitantes, marcam suas testas entre os olhos e realizam a limpeza do Linga.

O Linga (ou lingam) é uma estrutura de madeira que remete à dualidade masculina-feminina, afixada no chão, próximo a imagem do deus do seu respetivo templo. É nele em que são despejadas as oferendas à Shiva: leite, água e flores.

As tintas têm diferentes significados, mas sempre que você visita um templo, você é marcado entre os olhos com a cor da respectiva divindade. Ao visitar o templo de Shiva, a gente recebe um pó branco em três linhas pela testa. Nos templos de Ganesha, recebemos um ponto laranja entre as sobrancelhas; e no templo de Durga, um ponto vermelho. Além disso, entre as mulheres casadas há o costume de se usar uma linha vermelha pintada de forma vertical da raiz do cabelo até a testa. Essa pintura é feita todos os dias com um pó chamado Sindoor, com o cabelo ainda molhado (para melhorar a fixação), e deve ser aplicado diariamente somente por elas mesmas ou pelos maridos.

Ok. Agora vamos voltar. Tive que inserir essas observações para que o leitor consiga entender um pouco melhor a respeito das visitas aos templos que fizemos ao longo dos dias que passamos na cidade. Em alguns templos, como foi o caso do Golden Temple, não é possível adentrar com câmeras ou fazer fotos mesmo que de fora do local, mas devo suferir que se você for à Varanasi, comece por lá sua jornada pela cidade, seu ponto de partida.

Saindo do Golden Temple, fomos ao Nepali Temple. Um templo muito antigo quase à margem do Ganges. Ele é todo construído em madeira e dedicado à Shiva, representado neste caso por uma serpente em seu altar. Neste templo moram indianos, tibetanos, outras pessoas que só falam sânscrito e algumas viúvas indianas (sempre vestidas de branco) abandonadas pelos filhos após a morte do marido. Todos fizeram votos de exclusiva devoção à divindade e vivem totalmente alheios ao mundo material.

Em Varanasi, duas vezes ao dia são ofertadas pelo templo, duas refeições – almoço e jantar. Qualquer pessoa que sinta fome pode participar da refeição, mas em sua maioria são aqueles mais necessitados. Há um restaurante no centro da velha cidade onde a comida é preparada e servida, que aceita doações voluntárias em dinheiro para ajudar na manutenção; e ao final da tarde, serve a comida em alguns ghats próximos ao leito do Ganges, honrando assim as palavras de Shiva: “Em Varanasi jamais alguém irá morrer de fome”. Tivemos a oportunidade de almoçar em um dos templos, mas fizemos uma doação, em respeito ao trabalho realizado e às pessoas que mais precisam. Um detalhe: os indianos comem com a mão direita, sem usar talheres. A esquerda eles usam para se higienizar.

Agora uma curiosidade: quase todo mundo que conhece pelo menos um pouco sobre a Índia, sabe que eles nunca comem carne e que a vaca é um animal sagrado. Mas você sabe por quê? Acima citei que uma das oferendas feitas à Shiva é leite, que é uma das coisas com que ele mais fica feliz, e um dos animais que o representa (além da serpente) é justamente a vaca. Aí insiro aqui a pergunta que Shambhu nos fez: “Você comeria o seu deus?”. E nem precisa responder hehehe. Assim como Ganesha aparece sobre um rato, representando estar superior às adversidades do mundo material, ou Durga que vez ou outra é retratada montada num leão, os animais são representações dos deuses no hinduísmo.

Os Ghats são piers que dão acesso ao Ganges. Bem abaixo do Nepali Temple está o Lalita Ghat, que nos serviu de referência porque ficamos hospedados lá pertinho, e localiza-se no meio do caminho entre os dois principais ghats de Varanasi – o Manikarnika Ghat e o Dashashwamedh Ghat.

Para a cultura hindu, a forma mais auspiciosa de fazer a passagem do plano carnal para o espiritual é ser cremado no eterno fogo de Shiva, e depois ter seus restos mortais jogados no Ganges. Esta cerimônia de cremação é feita exatamente no Manikarnika Ghat.  A história conta que no local Shiva teria proferido um mantra no ouvido de um morto, a Prece da Travessia, mas não se sabe ao certo desde quando começaram estas cerimônias de cremação. Primeiramente os familiares cobrem o corpo com túnicas coloridas e o carregam num tipo de maca de madeira recitando mantras, até o leito do rio. Lá as túnicas são embebidas em cera e depois os corpos são queimados a partir do fogo sagrado de Shiva, aceso há milênios (e que nunca se apagou), situado em um dos templos em volta o Ghat. Shambhu nos contou que após a queima dos corpos, alguns ossos ainda permanecem – o tórax no caso dos homens, e o quadril no caso das mulheres – e eles então juntam o que sobrou e despejam no Ganges. Findada a cerimônia, os familiares costumam tomar banho no rio, como uma forma de purificação de seu karma.

O Dashashwamedh Ghat e o Prayag Ghat são mais ao sul, onde acontecem duas vezes ao dia (durante o nascer e o pôr do sol), o Ganga Aarti – cerimônia de adoração à Maa Ganga (Mother Ganga), representada pelo próprio Rio Ganges, e que diariamente reúne centenas de pessoas. A ritualística é bastante musical ao som de sinos, mantras, percussão e outros instrumentos. Durante a celebração eles queimam incenso e velas, e também utilizam água e flores, tudo aparentemente simbolizando os quatro elementos, mais evidente o fogo. O hinduísmo conta que Brahma, O Criador, fez o rio brotar de dentro de uma montanha no Himalaia, e criou o Dashashwamedh Ghat para receber Shiva. Recomendo que você assista a cerimônia ao Ganga duas vezes: uma primeira de barco e outra segunda em terra. Caminhando pelo rio, você irá encontrar muitos barqueiros oferendo o passeio para assistir a cerimônia a partir da água.

Também existem outros importantes templos mais afastados por volta de 30km de distância da velha Varanasi. Por 600 rúpias agendamos com um motorista de tuktuk que ficou à nossa diposição por todo o dia. Primeiro visitamos o New Vishwanath Mandir ou New Golden Temple, localizado na região universitária de Banaras, onde de cara já se nota a diferença nas vestimentas, bem mais ocidentalizadas das pessoas, principalmente dos mais jovens. Mais distante de lá também há o Templo dos Macacos ou Durga Kund Mandir, dedicado à deusa Durga. Infelizmente não podemos fazer fotos no interior, mas a visita é muito recomendada! Uma programação que não fizemos por falta de tempo, foi o conhecer o Tibetan Temple, também distante, mas se você puder reserve um dia inteiro para lá.

Qual a melhor época do ano para ir? 

Fevereiro e Março, sem dúvida! Durante estes meses acontecem duas celebrações importantíssimas em Varanasi:

  • Mahashivaratri – Dia de Shiva: A cidade se prepara por semanas para receber os peregrinos que vão até o Golden Temple na Velha Varanasi especialmente para este dia do ano. Como a cidade é cheia de gente, durante a celebração, fica ainda mais lotado! Em 2016, foi comemorado dia 07/Março, porém em alguns anos aconteceu em Fevereiro.
  • Holi – Festival das Cores: A data celebra a chegada da primavera com uma explosão de cores nos templos e nas ruas. É uma das cerimônias mais famosas da Índia. O Holi acontece anualmente em datas variadas após a primeira lua cheia do mês de Março. Em 2016, por exemplo, aconteceu dia 23, e em 2017 está programado para o dia 13.

Como chegar?

De trem ou de avião, a partir de Delhi. De lá voamos para Varanasi pela indiGo pagando US$ 50! Isso mesmo: os voos pela Ásia como um todo, são muito baratos! Há também a possibilidade de viajar de trem (fomos para Agra e Jaipur assim), você só precisa verificar a disponibilidade para a data em que você estiver planejando ir porque os trens não são tão regulares como os voos. E  um dica importantíssima: de trem, vá sempre na primeira classe!

Onde se hospedar? 

Os melhores hotéis ficam na Nova Varanasi, sem dúvida. Porém é na Velha Varanasi onde tudo acontece. Se você não estiver hospedado lá, terá que ir e voltar todos os dias. Então a principal dica do blog é: hospede-se perto do Rio Ganges! Ficamos no Puja Guest House, o hotel não é nada maravilhoso, porém a cozinha e a localização são nota 10! Estávamos a 2 minutos caminhando do Lalita Ghat e a 5 minutos do Golden Temple. Além de termos conhecido o Shambhu, funcionário do hotel, que foi um cara por quem terei sempre muita gratidão. Ele foi maravilhoso conosco e deixo aqui até o telefone/ WhatsApp dele: +91 99 8474 1722 .

Qual o orçamento médio? 

Para a Ásia como um todo, US$ 60 dólares por dia é um orçamento tranquilo para qualquer mochileiro.

Imperdíveis:

  • Golden Temple: se puder, deixe como seu ponto de partida.
  • Dar uma volta e sentar alguns minutos na margem do Ganges para observar a relação que o povo tem com o rio.
  • Assistir as cerimônias de cremação dos corpos no Manikarnika Ghat e o Ganga Aarti no Dashashwamedh Ghat.
  • Tomar um lassi (yogurt natural) no Blue Lassi.
  • Reservar um tuktuk pra conhecer os templos afastados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s